Coisa Mais Linda – Netflix retrata a realidade feminina desde os anos 50

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A recomendação geral é: todos devem assistir essa série!

Coisa mais linda retrata a vida no Rio de Janeiro em 1959: festas, música, elite, morro e bossa nova. Em meio a isso, 4 mulheres e seus dilemas da época. Precisamos falar desta série, porque muita coisa daquela época ainda acontece nos dias atuais. Carregamos (sem saber) paradigmas e crenças limitantes.

A protagonista é abandonada e enganada pelo marido e, ao invés de procurar um pretendente para casar (como era o costume da época), decide por si só abrir um bar musical. Deixa seu filho com seus pais em São Paulo e se aventura pela nebulosa e masculina sociedade do fim dos anos 50. Sofre assédio e é ridicularizada muitas vezes.

Primeira porta fechada: como é mulher, não pode pedir um empréstimo no banco. Segunda porta fechada: como não tem homem no contrato, não pode abrir um bar em seu nome. Todas suas ideias e tentativas de negócios eram zombadas já que ela era só uma mulher.

Contra tudo e todos… ela conseguiu, abriu o bar.

Essa série me fez refletir sobre a uma mulher que conheci. A protagonista de Coisa mais linda foi acusada de abandonar seu filho, baseada na crença que só a mulher é capaz de cuidar bem dos filhos. Isso, pra essa mulher que conheci, também era óbvio. Só que um dia ela mudou, lutando contra seus próprios preconceitos. Então abriu mão da guarda do filho e o menino foi morar com o pai. Hoje, quando diz que seu filho criança mora com o pai, causa estranheza e ela se vê tendo que se defender dizendo que não perdeu a guarda, que foi uma opção/desejo/necessidade dos 3.

As pessoas costumam perguntar a ela: como uma mãe consegue viver longe de seu filho, você não morre de saudades? Mas é claro que sim, ela diz. Perguntas que refletem essas crenças. Você já viu algum pai receber esse tipo de indagação? Ela casou por que queria viver o sonho de princesa, casar e ter filhos, mas se separou porque não admitia falta de liberdade e respeito e muito menos de ter que obedecer a alguém. A separação aconteceu quando seu filho tinha 2 anos, e desde então sua dedicação era parcial para ele, e parcial para sua carreira. Mal sobrava tempo para amigas. Claro que não estava conseguindo fazer nenhum dos dois direito: seus sonhos e seus projetos andavam a passos de tartaruga e sempre quando deitava para dormir se sentia culpada por não ser a mãe ideal e por não ver seus sonhos se concretizando.

O pai da criança, pedia ano após ano para eles trocarem (um ano com cada), mas ela nunca deu atenção, afinal, vivia dentro dessa matrix, numa sociedade aonde é super normal uma mulher dar conta sozinha dos seus filhos e só depois cuidar da carreira, ou mesmo nem ter uma carreira. O pai também sofreu a ausência do filho, portanto, homens e mulheres sofrem por perpetuar isso.

Precisamos pensar em novas possibilidades. Acredite, demorou para ela assimilar tudo, mudando essas crenças, indo a terapias, para poder criar uma nova configuração. Ela sofre preconceito, mas não liga, sabe por quê? Ela nasceu numa época e numa família aonde entendeu (desde cedo) que poderia ser o que quisesse.

Sua frase era: as mulheres boazinhas vão para o céu e as más vão para qualquer lugar.

Ela achava boazinhas as meninas da época de adolescente que faziam tudo conforme a cartilha. Como ela sempre pôde sonhar, e teve uma mãe que casou para sair de casa, um pai que precisava dar conta sozinho do sustento de toda família, sua mãe lhe permitiu ser livre, segurando o choro e encorajando quando saiu de casa pela primeira vez.

A mulher que conheci tinha a certeza que poderia ser quem ela quisesse. E assim poderia sonhar, afinal poderia ir para qualquer lugar! Sonhou em fazer intercâmbio, sonhou em fazer uma faculdade, sonhou em ter seu próprio negócio, afinal ela era “má”, não seguia cartilhas e poderia ir aonde quisesse.

Muitas vezes se viu em conflito, afinal, às vezes achava que deveria seguir a cartilha. Ela rasgou a cartilha e seguiu seus sonhos, escolheu e hoje segue seu caminho, nunca deu muita atenção ao que as pessoas pensavam de dela, tinha um foco, tinha uma direção e os meios para chegar. Não foi fácil, não é fácil. Hoje ela percebe as mazelas de quem seguiu a cartilha e depois de tudo pronto (profissão, família, filhos…) vem o vazio e se culpam: eu tenho tudo, não posso reclamar de nada, mas estou infeliz.

Vivemos num mundo cheio de cartilhas a serem seguidas, mas não precisamos mais disso. Somos livres, podemos escolher. Sabe o que fez essa mulher determinada se sentir infeliz, todas as vezes que tentou seguir as cartilhas. Sabe o que falta para quem está infeliz? Faltam sonhos, faltam metas, faltam desafios, falta coragem…

Ela desejou nunca mais se casar, por que não queria que ninguém mandasse em sua vida ou suas escolhas. Mas num momento ela entendeu uma coisa preciosa, alguém só vai mandar se ela permitir. As mulheres, fruto dessa cultura, muitas vezes se permitem serem mandadas por acreditar que assim elas serão boazinhas e respeitadas por seus maridos, afinal, está na cartilha, faço tudo direitinho, vou tirar 10 no final. E não tiram… aí vem a depressão, desânimo, infelicidade e confusão.

Precisamos falar de “Coisa mais linda, e precisamos falar do lugar dos homens e das mulheres, porque são as mulheres boazinhas que ainda morrem por essa visão, são homens BONS, acreditem, na maioria, são homens bons que matam por essa visão.

Agora, corra para assistir e tirar suas próprias conclusões!

2 Responses
  • Fabíola
    abril 23, 2019

    Uauuu! Eu também assisti! Fiz várias leituras paralelas! Concordo em gênero número e grau, temos que parar de seguir as cartilhas! Sonhar e realizar!

  • Franciane
    abril 23, 2019

    Isso aí. Rasgando as cartilhas em 3..2..1…

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